Não quero mais…

Não quero mais migalhas! Não quero coisas do tipo ‘mais ou menos’, ‘pessoas-mais-ou-menos’, ‘relações-mais-ou-menos’, enfim, coisas e seres que acabam por fazer eu me sentir mais-ou-menos também!

Não quero ter uma úlcera por conta de tanta ansiedade com situações que, simplesmente, não desenvolvem – independentemente do meu esforço e/ou do meu querer. Afinal, eu não tenho como controlar acontecimentos, atitudes e nem fazer scripts da vida!

Não quero mais pessoas que se dizem com “dificuldade” de expressar sentimentos de amor, carinho, interesse, embora jurem que me amam, me querem bem e que estão interessadíssimas em mim.

Não quero ter que bancar sempre a vidente e tentar adivinhar o que o outro quer ou sente… Me poupe! Não tenho dons mediúnicos!

Não quero ser a única a levar todo o peso nas costas, todas as responsabilidades e todos os cuidados.

Não quero mais gente que não sabe assumir a sua parcela de culpa nos fracassos da nossa “parceria”.

Não quero quem não sabe definir, nem optar, e o fato ‘de me ganhar ou me perder’ parece não lhe fazer a menor diferença.

Não quero estar numa rodinha de criaturas sem afinidade alguma comigo e ouvir aquelas coisas toscas e ainda ter que rir das mesmas (para não parecer mal educada).

Não quero mais ‘mornidão’, indecisão, gente ligada ao passado, gente fechada pra balanço, gente mal-resolvida! O máximo que posso fazer é lhe passar o contato de um excelente terapeuta! Vai se tratar, por favor!

Não quero todo aquele blá-blá-blá de sempre!

Não quero mais perder tempo com gente e coisas que… francamente, pra que insistir?! Não valem a pena!

Meu irmão, se na altura do campeonato, você ainda não sabe o que quer da vida, me dá licença

pois EU SEI o que eu NÃO quero pra minha! Fui!!!

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O ENCONTRO (Vanda Fliess)

Pensei em contar essa história, pois não é sempre que damos de cara com Ela. Fui testemunha ocular de uma de suas visitas inesperadas. Digo inesperada porque a Dona Morte tem dessas coisas, parece um tanto caprichosa – é de lua. Às vezes, se anuncia e fica ali por perto se revelando aos poucos, fazendo com que acreditemos que é possível até mesmo vencê-la – o que é um ledo engano. Por outras, gosta de se fazer de boa moça e piedosa, dando tempo para que possamos nos redimir dos pecados, nos despedir dos mais chegados, fazer um apanhado geral e mesmo ansiar por ela. Mas vocês sabem que não é sempre assim…

Bem, tudo aconteceu a um camarada num bar onde eu também estava, bebendo uma cerva gelada com o Zeca, meu cunhado. Ainda sendo mero espectador, posso dizer que fui marcado profundamente. Aquele momento me deixou sequelas por dias, meses, não sei por quanto tempo ao certo. Só sei que ver a Morte me trouxe um pânico da Vida, de cruzar certas estradas, de dirigir por certas ruas, de andar por um lugar ou outro e, quem sabe, esbarrar mais uma vez com Ela.

         Lembro-me bem que não era tarde. Devia ser o fim do dia de um fim de semana qualquer. Zeca e eu estávamos sentados na varanda do bar onde era mais arejado. A nossa frente, havia uma calçada larga com alguns carros estacionados e gente a ir e vir. A conversa prosseguia animada, falávamos de política e futebol, espiávamos as mulheres bonitas que passavam, até que fomos surpreendidos por uma gritaria.

A princípio, não demos atenção para o que estava acontecendo – apesar dos camaradas parecerem bastante exaltados.  Também desconfiei não ser o primeiro encontro deles. Eram conhecidos de outros carnavais, sem dúvida, e tratavam de alguma pendenga antiga. O mais novo tinha um ar desafiador, era alto, “marombado”, vestia jeans e camiseta. O mais velho estava mais apresentável, com um traje um pouco formal. Se não me engano, trabalhava para o bar.

Os dois sujeitos finalmente foram resolver o problema do lado de fora. Ainda assim, ficaram bem próximos de mim e do Zeca – que assistíamos a tudo de camarote.

Para ser honesto, comecei a me sentir desconfortável com o rumo que a discussão tomava. Zeca, da mesma forma, se inquietava, pensou em levantar, ir até lá e mandar o velho discurso da turma do “deixa disso”. Porém, não demorou muito para vermos o mais velho-bem arrumado sacando uma arma de dentro do blazer escuro. Foi mulher gritando, pegando as crianças e correndo para os fundos do estabelecimento, gente aproveitando o ensejo e saindo às pressas sem pagar, enquanto outros ameaçavam se jogar ao chão.

_ Fica quieto ou te mato! – ameaçou.

_ Vai me matar? Quero ver! Vai, mata! – desafiou o mais jovem.

Confesso que, de desconfortável, passei a assustado. Como alguém simplesmente não se amedronta ao ver uma pistola apontada para a cara? O que faz alguém se sentir tão inabalável e incrédulo das ameaças alheias? – Comecei a indagar. Tentei acreditar que nada de ruim poderia realmente acontecer. Afinal, quem faria tal loucura cercado por inúmeras testemunhas?

E o bate-boca seguia sem tréguas, sem receios, sem respeito, sem muito pensar…

Ouvimos o primeiro tiro e outro… Silêncio, não um silêncio de ausência de sons! Certamente houve muito estardalhaço, mas eu só percebia aquele silêncio de filme, aquele instante em que tudo ao redor congela e as câmeras se fixam naquela única cena.

Vi a Morte chegar para um jovem que, a princípio, parecia tão destemido e seguro de si. Vi a Morte aproximando-se dele e ele sem nada poder fazer. Ela o tomou nos braços com certo cuidado e destreza. Não vi o corpo cair bruscamente, pelo contrário, ele caía como em câmera lenta. A Vida, toda ela, esvaía-se por seus olhos. Seus lábios já não tinham mais movimento, e mesmo de longe, notei que empalideciam.  Vi a Vida sair de fininho enquanto a Morte reinava soberana.

Zeca me puxou pelo braço:

_ Vamos sair daqui.

 Fiquei em estado de choque por algum tempo, talvez. Consegui me levantar, finalmente. Vi que a conta estava paga. Meu cunhado havia acertado tudo. Passamos pelo corpo. Olhei! Não resisti! Onde estava o rapaz que falava até então? Não havia mais vestígios dele por lá, apenas um corpo estirado sobre uma poça de sangue.

Não me pergunte o que foi feito do homem que atirou. Não me pergunte sobre nada do que se seguiu após. Apenas sei que fui levado para casa pelo cunhado Zeca.

Depois de tudo, não fui mais o mesmo, isso é fato! E pode até ser que o meu encontro com Ela ainda demore bastante para acontecer – e assim espero que seja! Contudo estou certo que jamais esquecerei a cara austera e debochada que a Dona Morte tem.

AS CORES (Vanda Fliess)

Estava abraçada aos livros coloridos, tinha uma bolsa bege clara pendurada sobre o ombro esquerdo, usava um vestido azul escuro, os cabelos presos e o suor a escorrer pelo rosto sem cor. O sol das quinze horas fazia seu cabelo de tom acobreado brilhar ainda mais. Tentava, inutilmente, se esconder abaixo de pouca sombra que conseguiu encontrar por lá. Foi quando passou um carro verde a buzinar. A princípio, julgou que fosse mais uma daquelas cantadas baratas – coisa de sujeito desocupado. Fez que não viu. Ele não desistiu, buzinou uma segunda vez e parou um pouco mais adiante. Ela, no entanto, jurava ser só mais um a contemplar suas pernas bronzeadas do verão. Envaideceu-se um pouco, é verdade, mas não perdeu a pose. Foi quando ele engatou a ré e, dessa vez, parou bem à sua frente:

 _ Entra aí! Não quer carona? Estou indo para aquelas bandas…

Finalmente, reconheceu o carro, a voz, o rosto… que surpresa encontrá-lo em plena luz do dia! Ela sorriu um sorriso amarelo – daqueles de quem está um tanto sem graça. Fez que aceitaria, recuou um pouco…  Algo a fez parar, algo como seu sexto sentido feminino, um aviso do anjo da guarda de plantão, a voz de sua consciência, ou uma besteira qualquer. Ficou com a última hipótese e entrou no carro depressa antes que mudasse de ideia.

Os dois pareciam satisfeitos com o inusitado encontro e, já que não se viam há algum tempo, assunto até que não faltou. Porém, uma desconfortável sensação soava como outro passageiro ali sentado entre eles. Ela, finalmente, descansou os livros coloridos e a bolsa bege clara sobre o colo. Do outro lado, ele mantinha as duas mãos bem firmes sobre o volante, e o os seus olhos castanhos, nem tão atentos à direção. No rádio, tocava Black do Pearl Jam: I know someday you’ll have a beautiful life, I know you’ll be a star in somebody else’s sky, but why can’t it be mine?Ela riu das coincidências. Ele, para variar, perguntou o motivo do seu riso.

Ela, para não perder o costume, desconversou, mostrando-lhe a capa de um caderno onde havia uma figura bizarra de um alienígena barrigudo em tom azulado. Os dois danaram de rir. Certamente, tratava-se de uma private joke – piadinha particular, daquelas que ninguém mais entende, além dos próprios.

Estavam ainda entretidos com as risadas quando, assim de repente, fez-se ouvir um barulho assustador dos pneus a frear sobre o asfalto cinzento e escaldante. Sentiu como se rodassem. Foi tudo tão rápido. O que estava havendo, afinal? Ela foi incapaz de perceber quaisquer detalhes do que havia acontecido. Sentiu os livros coloridos a escorregar por suas pernas. Houve uma vã tentativa de se segurar em algo. Um estrondo, a escuridão e pronto! Todas as cores haviam sumido, agora era só breu. Silêncio. Não pôde dizer quanto tempo ficou naquela inércia paralela, naquela ausência de tons, sons e sentidos. Abriu os olhos aos poucos. Havia um homem forte e de uniforme marrom claro do lado de fora a pedir calma. Algumas pessoas cercavam o veículo, espichavam suas cabeças com olhares mais curiosos do que assustados. Quanto tempo tinha realmente passado? Logo, viu manchas avermelhadas por todos os cantos. Sentiu um gosto diferente na boca, que lembrava areia. Não conseguiu virar a cabeça, só os olhos… procurou por ele. Não havia ninguém. Estranho…

Naquele momento, não sentiu vontade de gritar, nem de chorar. Não pensou na vida, nem na morte. Nem mais sentia o calor forte da tarde de verão. Deitaram-lhe, finalmente, numa maca. Viu o céu azulado a correr depressa sobre sua vista e, logo depois, o teto branco do veículo onde a puseram. Havia uma mulher ao seu lado que parecia vigiá-la. Tentou lhe dizer algumas palavras… Nada! Tentou mais forte e, quase silabicamente, disse:

         _ Meu amigo…

         A moça acariciou seus cabelos e tentou aquietá-la.

         _ Meu amigo… que estava no carro – Insistiu.

Nunca havia sido tão difícil pronunciar meia dúzia de palavras.

         _ Não havia ninguém no carro, querida, só você. Mas não se preocupe, vai ficar tudo bem. – Respondeu a estranha.

         Tirem-me daqui – ela pensou. Afinal, precisava saber dele, se estava bem, se necessitava de ajuda. Talvez tivessem mentido para ela. Talvez, para ele, não haveria nem mais socorro. Pela primeira vez, cogitou a possibilidade de perdê-lo, não momentaneamente, mas para sempre. Desesperou-se com a idéia. Foi, então, que fez uma força descomunal para se levantar da maca… e conseguiu!

Gritou assustada! Voltou a sentir seu coração bater, e agora, forte, ligeiro, a querer sair pela boca. Onde estavam as paredes brancas da ambulância? Ela parecia estar de volta a outro lugar escuro. Onde estava agora? No céu? Ou seria o inferno? Sentiu medo pela primeira vez. Procurou pela moça da ambulância, ela também havia desaparecido. Levou a mão sobre a boca. Não sangrava mais.

Aos poucos, foi habituando-se àquela escuridão toda e começou a reparar ao seu redor: deparou-se com a cortina de renda, a cômoda de mogno, o quadro de fotos dos VIPs, os livros coloridos amontoados sobre a mesinha de cabeceira. Sentiu o vento frio que vinha do ar condicionado. Puxou o edredom listrado nos tons lilás, azul e verde-água, deitou-se e jurou que tentaria dormir.

Antes, porém, lembrou de agradecer a Deus pela sua vida cheia de histórias para contar, ilustrada sempre com diversas cores, às vezes marcada por algumas dores, mas ainda assim, repleta de muitos amores!

O GENE DA LIBERDADE (Vanda Fliess)

Sim, a garota estava certa de que, mais uma vez, faria o seu querer prevalecer e, com descaso, tratava toda a fúria que vinha dele e todas aquelas ameaças, espirradas como hálito escaldante da boca de um dragão. Não, não se intimidava com nada daquilo! No fundo, talvez, não conseguisse entender bem por que ambos estavam em constante discordância, por que ele sempre contrariava seus caprichos – que ela preferia chamar de “vontades” – e por que ele fazia sempre ouvido de mercador à sua ânsia desesperada por “finalmente liberdade”. Seria apenas um jogo de pátrio poder a fim de ressaltar sua autoridade e soberania? Era difícil compreendê-lo, principalmente, quando todos os outros na casa já pareciam bem mais confortáveis com a sua jovial intrepidez.

Mas a briga tinha sido feia naquela noite. Chegou a vê-lo saindo de casa, bastante irritado ou mesmo magoado. Não fazia ideia para onde ele tinha ido e, na verdade, nem se preocupava em saber. Foi, então, para o seu quarto. Era uma sexta- feira e queria deixar tudo em ordem para o dia seguinte.  Estava decidida! Nos fins de semana, sairia para trabalhar com um amigo na praia. Coisa simples: ajudaria na barraca da Dona Valdecir, mãe do Gazelinha, que vendia bebidas e alugava cadeiras e guarda-sol. E que mal poderia haver nisso? Era mais que perfeito: faria um dinheiro extra, passaria o sábado e o domingo inteiros no ‘point’ favorito de qualquer carioca que se preze e em companhia de gente boa. E daí que só tinha 17 anos? “Logo, faço 18!” – fazia questão de lembrá-lo.

Porém, ele não conseguia mais esconder sua total aversão à ideia. Argumentava que não havia necessidade daquilo e que ela precisava dedicar-se com mais seriedade aos estudos. Na verdade, surtava ao imaginar sua garotinha servindo cervejas aos marmanjões na praia do Pepê.

Por outro lado, a danada era corajosa e rebatia suas ponderações, apropriando-se de tudo aquilo que ela tinha ouvido sobre o seu passado. Ele mesmo começara a trabalhar quando criança, vendendo jornal nos trens do subúrbio aos 14 anos. Por necessidade? Não exatamente. Era a mesma razão de agora, e a de sempre: aquele perturbador latejo pela liberdade – maldita herança genética.

Dele, ela também trazia o legado de tantas outras características, como a de teimar em ter as coisas ao seu tempo e jeito, e a audácia de fazer seu querer acontecer e pronto! Já diz o ditado que “dois bicudos não se beijam”. Bem, era alguma explicação. Ambos, talvez, também tivessem uma vaga consciência de que laços de família têm dessas coisas. Às vezes, pode ser complicado ter que amar alguém tão parecido, e ao mesmo tempo, tão diferente. De certa forma, parece haver uma estranha obrigação, e que fere, de amar um indivíduo que carrega nosso sangue e histórias, pessoas que bem provavelmente, em outra ocasião, não faríamos nem questão de conhecê-las. Porém, lá estão todos presos, seja por uma necessidade financeira, uma questão moral ou uma convenção social. E era assim que pai e filha vinham se sentindo com o passar dos anos. As discussões não faziam bem a nenhum dos dois, é fato, mas eram costumeiras e quase que inevitáveis.

A garota arrumou sua bolsa de palha, escolheu o biquíni mais colorido, o short não tão curtinho, uma regata branca, e um par de havaiana verde e amarelo. Deixou tudo sobre o pufe no canto do quarto. Estava pronto seu uniforme de atendente praieira e sentia uma felicidade indescritível – o frisson da liberdade! Olhou-se no espelho e fez um rabo de cavalo. Foi, então, que se lembrou da última advertência dele: Iria trazê-la de volta para casa nem que fosse pelos cabelos. Deu uma sacudida de ombros, mais uma vez, duvidou de sua coragem e foi deitar tranquila. Ao virar-se para apagar o abajur, ouviu alguém bater de leve na porta. Seria um de seus irmãos? Ela, logo, pensou. Não, não era! Viu, finalmente, o rosto do dragão doméstico a despontar entre uma brecha.

_ Vi que a luz estava acessa. – Ele parecia bem mais calmo. Continuou:

_ Lamento informar, mas amanhã não vai dar praia. Uma frente fria acabou de chegar à cidade. – E saiu.

Ela não se conteve. Pulou da cama, abriu as cortinas e viu um céu escuro, sem estrelas ou lua, carregado de muitas nuvens. Uns pingos grossos já borravam o vidro da janela.

_ Droga! Como o tempo muda assim, tão de repente? – Pensou indignada.

Do lado de fora, ele esboçou um sorrisinho no canto da boca, num misto de alívio, prazer e vitória. Aquele, entretanto, não era o fim da guerra, mas somente de uma pequena batalha. Teria conseguido mais tempo, talvez. Quem sabe, no dia seguinte, não conversariam e ele a apresentaria algumas alternativas razoáveis para toda aquela problemática? Bem, o que custava tentar?  Quem ama, não desiste. Ela, da mesma maneira, não cederia assim tão facilmente. Não, jamais! E disso, ele estava mais do que certo. Afinal, a garota era carne da sua carne, sangue do seu sangue, e como ele, era osso (bem) duro de roer.

TAL QUAL CHUVA (Vanda Fliess)

Voltou a chover após tantos dias de seca, e naquela mesma noite, ele voltava a vê-la após tantas outras noites, também de alguma semelhante secura. Estava a caminho, pensando nela e, logo que notou que se aproximava de seu condomínio, resolveu enviar uma mensagem de texto avisando que chegaria. Não que ela já não soubesse que estariam juntos, porém isso soava como um ritual próprio, só deles. Não tardou para que recebesse uma resposta: “não demora, te espero”. Sim, aquele era um sinal claro que, da mesma forma, ela ansiava por sua vinda. Seguiu o curto trajeto que restava - ainda com o pensamento e os sentidos voltados para ela - e pouco se dava conta dos carros, placas, pessoas, sons, letreiros, ruas e avenidas que cruzavam o seu percurso.

Enfim, chegou. O edifício era antigo e não tinha muitos andares. As janelas de sua sala e quarto ficavam viradas para a rua principal. Viu uma luz fraca e trêmula que vinha de um dos cômodos. Resolveu parar seu carro um pouco mais adiante. Era difícil encontrar uma vaga naquela rua estreita e, para variar, estava sem paciência alguma! Desceu do carro e como a chuva apertava, apertou também o passo e logo tocou o interfone de seu prédio. O porteiro da noite, um senhor moreno, baixinho, magro, de olheiras fundas e bigode mexicano, assim que o viu, abriu o portão. Nem sequer perguntava mais para onde ele ia. Bastavam um “boa noite” e um sorriso amarelo. E ele ainda pensava nela… e como pensava! Teve o ímpeto de subir os cinco andares pelas escadas, contudo sua forma e condição física não permitiam tal proeza. Pegou o elevador. O apartamento dela, o 503, ficava logo à frente. Antes mesmo de ele tocar a campainha, pôde ouvir o som das chaves. Ela abria a porta.

Sorriram contidamente um para o outro enquanto ele entrava – como se necessitassem de tamanha formalidade. Ela desembestou a comentar sobre a chuva que caía lá fora. Fez que concordava, mas nem sabia ao certo do que ela falava. E lá estava a luz fraca e trêmula que havia notado antes, quando ainda estacionava o carro: eram umas velas em forma de pequenas estrelas, pareciam aromáticas, com cores diversas, espalhadas pelos quatro cantos. Os outros cômodos permaneciam no escuro. Naquela altura, muito honestamente, pouco lhe importavam aqueles detalhes tolos e toscos, e nem mesmo o barulho irritante e constante do ventilador velho de sua sala de estar o incomodava. Ela ainda falava quando ele lhe calou com um beijo. Mulher fala demais!

E ali, ficaram próximos à porta, naquele beijar sem fim, naquele silêncio quase constrangedor. Ele a encostou na parede que ficava entre a porta e a janela. Era um espaço estreito, mas onde seu corpo delgado bem cabia. O corpo dele se apoiou sobre o dela. Sentiu seu calor e seu cheiro. Percebeu que ela podia o ver, mesmo de olhos fechados. Seu respirar não tinha mais o mesmo compasso, era, agora, ligeiro e sentido. O silêncio passou a não ser assim tão silêncio… E, então, finalmente, podiam se sentir, e ainda mais, se buscar e se permitir e faziam o que, por aí se chama: “matar a saudade”.

Foi quando realizou o momento simples e perfeito que vivia e o quanto era gostoso estar próximo dela.  Reforçou sua ideia que um momento perfeito não precisa ser eterno ou rico em detalhes.

Sabia, no entanto, que era bem provável que ela ainda se perguntasse por que tais momentos – apesar de toda a especialidade - eram cada vez menos frequentes.  Estava certo que, na ocasião oportuna, e com toda razão e propriedade, ela faria uma carinha amuada e se queixaria de seus habituais sumiços – coisas de mulher. “Coisas de homem”, ele diria em defesa própria. Talvez, coisas dele. Não saberia dizer. De qualquer forma, estaria resignado e pronto para qualquer bombardeio. Sim, valeria a pena! O fato é que nem as velas ou o ventilador barulhento, nem a chuva ou a seca, o trânsito ou os queixumes românticos dela,… nada daquilo, naquela noite, importaria mais do que tê-la assim tão perto. Ter seu sorriso franco, maroto, e sedutor; aquela boca… ah, aquela boca; ter sua mão a procurar pela sua e a o levar aonde quisesse; ter seu carinho incondicional; seu jeito faceiro; seus mimos desmedidos; suas delicadezas; suas franquezas; seus caprichos realizados; seu corpo colado. Mais uma vez, quem diria? Ali estava ele e era dela. E isso tudo, meu caro, não tem preço! Deixou fluir.

Mais tarde, virou-se para alcançar o celular sobre o criado mudo. Fitou as horas que realmente parecem ter asas e voam ligeiras. “Preciso ir”, disse ele com certo receio e dó. O semblante sereno e os lábios cerrados dela foram sua única resposta.

E lá fora, não mais chovia…

i like my body when it is with your (e e cummings)

i like my body when it is with your

(e e cummnings)

i like my body when it is with your
body.  It is so quite new a thing.
Muscles better and nerves more.
i like your body.  i like what it does,
i like its hows.  i like to feel the spine
of your body and its bones, and the trembling
-firm-smooth ness and which i will
again and again and again
kiss,  i like kissing this and that of you,
i like, slowly stroking the, shocking fuzz
of your electric fur, and what-is-it comes
over parting flesh… And eyes big love-crumbs,

and possibly i like the thrill

of under me you so quite new

BERNARDO (Vanda Fliess)

 

That was the end of the party: people talking here and there… a mix of joy and some tiredness. And I was still there trying to play the “good hostess’ role”. There was a good-bye feeling in the air… Something more than the usual stuff for the end of a party. Oh yeah! I knew that! However I was trying hard NOT to think much about it. But he finally came to me… It was time to hear Bernardo say good-bye. I was not expecting him at that moment. I remember I was explaining something important to someone else. Bernardo just came to me and I turned towards him. I knew exactly what he was there for. So, my heart froze. Bernardo threw his arms around me in a kind of long and strong hug, a good-bye hug in fact! I could feel his heart beating next to mine, his breath next to my ear… I couldn’t stand it for so long and then I sat down… We sat down in that endless hug! I’m quite sure it didn’t take that long… no, no way!!! There were so many people around us… But that moment was long enough to see, as in a movie on a TV screen, everything we had spent together during those last 2 years. We had learned so much from each other. I could remember all those mornings ‘stamped’ by a thousand of sweet kisses, all those times he used to call me ‘beautiful’, the times we used to sit together in the room floor to read a book, to listen to a song, to sing a song, to laugh out loud… I could remember when we had a picnic in the woods and he was in such a bad humor, refusing to eat all I offered him (just to drive me mad)! But he couldn’t resist long and devoured all the chocolate cake and the peach juice! I also remembered that I used to sit at my desk in order to correct some of my pupils’ assignments, and out of the blue, there he was – behind me – smelling my hair. He used to say that my hair smelled like diamonds! “Diamonds?! Are you crazy, Bernardo?! Diamonds are odorless!!! Please, go, go!!! I still have lots of things to do and so do you!” But he never seemed in the mood to obey my orders, either. I could also remember the only time that he broke my heart and how sad and disappointed I got! However I still keep his lovely letter apologizing sincerely. Yeah! I was quite able to remember all that while he was holding me tightly in his arms. And I whispered: “I love you so much!” I had tears in my eyes… I wish I could cry… but I couldn’t! I shouldn’t! Not there! Bernardo finally let me go and surprisingly he didn’t have tears in his eyes… He was not crying!!! He brought a beautiful huge smile on his face, instead. A smile which seemed to try to comfort me somehow… So, I smiled back to him. He eventually said: “Oh! I still need to do a last thing in order not to forget you anymore!” And then he came closer again, placed his nose among my hair and smelled it for the last time. He smiled. …stood up. I opened the front door. And he finally left…

(Bernardo – my seven-year-old student at Anglo Americano School.

That was about December 2007, my last year there. We had our ‘good-bye party’).

 

VALENTINE’S, SEX, COMMITMENT…

Once I read an article on a friend’s blog and his article kinda led me to write this one. Humberto had started his post with the following question: “What’s wrong with sex nowadays?”
It’s Valentine’s Day and nobody took me out for a candle light dinner or something, and therefore, “no chances of having ”fun” tonight!!!” – Someone may conclude – And u know something?! That’s pretty much OK! I mean… I just simply can’t figure out this MISconception of ‘doing certain things’ at ‘certain specific times’. I myself had already had my portion of “perfect-sweet-valentine’s-moments” and most of them (honestly) ended up in super-ultra-mega-power-big-endless restaurants’ lines … How boring and stressful and bizarre and non-romantic for a day which tries to symbolize LOVE! Don’t you think?!
The funniest of all was something I read on the net. It was a kind of “ad” a day or two before Valentine’s which said: “Ther’s still time!!!” “Time for what?” – I asked myself. Ok, let’s click on the stuff and see what it is…
“There’s still time for you to find a date!”. (OMG!!! I wanna ‘throw up’!!!!!!!!!!!!!!)
Man, what’s wrong about spending Valentine’s by yourself?!
What’s the real matter about NOT having a boy/girlfriend all the time, too?!
You know what drives me mad the most?! It’s when people try to establish this kind of talk with me:
Classical Example:
Mr./Mrs./Ms Idiot: “
Can’t believe it! Don’t YOU have a boyfriend?!
Me: “
Well…
Mr./Mrs./Ms Idiot: “
How come?! You’re such a lovely and smart woman!
[Notice how people are able to praise you this much when they want to emphasize the idea you’re alone...]
Me: “Well… Good, good question..
Mr./Mrs./Ms Idiot: “I think you’re too demanding, aren’t you?!
Me: “Well… kind of… I believe I’ve got the right to be… sorry?! Did you say ‘demanding’?!
[already trying to be somehow sarcastic...]
Mr./Mrs./Ms Idiot: “
That’s the problem with modern women. You keep waiting for a prince, a perfect guy, and the like…
Me: “
Well, maybe… or maybe NOT! Perhaps I just don’t want to be with ‘anyone’ just to show that I have ‘someone’. Got it?! And besides, the fact of NOT seeing me with ‘somebody’ doesn’t mean exactly I have ‘nobody’! And, please, excuse-me… I gotta throw up!

[THE END OF A WOW-CONVERSATION ACTIVITY!]
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About that question from the beginning, I do believe there’s something wrong, NOT with SEX itself  – Perhaps there’s something wrong with the idea most people have about ‘sex and commitment’ nowadays. You know, guys, that the easiest thing to ‘get’ nowadays is SEX: paid, for free, whatever! I still believe that sex and commitment should somehow come together.
When I talk about COMMITMENT, I’m NOT talking about marriage, engagement, an ‘official date’ or something… it’s MUCH MORE than that! It’s a commitment of ideas, taste, desire, plans, even LOVE! [Although I have to state that sex and love are two very different things. And we can perfectly have one without the other and also find great pleasure in doing so - though I still believe it’s awesome when we have the chance to join both!] – [quite hard to get it though, huh?! =/]
And please, I have NO intentions to convince anybody here about my beliefs!!! Definitely NOT!
I just think GOOD SEX may take place when you are able to share a part of YOU with someone else. Sex is not only the harmony of bodies, muscles, hands, fingers, lips, tongues, teeth, move, whispers but also the connection of  souls and their dreams, their wishes, ideas, pursuit for happiness and satisfaction… Wow! That’s amazing when we can have all this together!! Sex should be the extension of what two people live OUT OF THE BED!!! I mean, that’s what I’ve been mentioning throughout this [ops! endless…] article: the ‘sharing’ and ‘giving’ and ‘generous donating’ of your SELF. Chances are if we try to have it, quality will improve 100% and people will finally stop complaining so much about their partners and their sexual and love life… [And believe me!!! There are a lot of frustrated people all around!]
Ok! You just need to have in mind the price which is sometimes paid for all that.. and this may include spending Valentine’s day all by yourself at times!!!
Well, now.. it’s up to you!!!
For me, that’s STILL very worthy!

Refletindo sobre ‘WAITING FOR GODOT’…

(Parte I) – A Questão da Espera

“Waiting for Godot” (Esperando Godot), peça de Samuel Beckett, escritor irlandês, publicada em 1953, foi escrita originalmente em francês, e só mais tarde, traduzida para o inglês. Diria que certamente foi um dos trabalhos literários mais importantes da dramaturgia do século XX. Tive a oportunidade de conhecer a mesma enquanto aluna na universidade. Em setembro de 2001, a peça esteve em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil. Tive, então, o privilégio de assisti-la. Recordo-me que alguns da platéia saíam durante o transcorrer do drama. Outros, quando perseveravam até o fim, deixavam o teatro entre resmungos e mal dizeres. Mas já era de se esperar!!! “Waiting for Godot” está intimamente ligada ao teatro do absurdo, onde tragédia e comédia colidem em uma ilustração obscura da condição humana e do absurdo da existência. Há uma esterilidade de emoções, ausência de comunicação e, totalmente, proposital!

Em “Waiting for Godot”, há dois personagens centrais: Wladimir e Estragon, dois mendigos a espera de um homem, Godot (que, na verdade, NUNCA chega). Estão sozinhos em uma estrada deserta que, aparentemente, não leva a lugar nenhum. O mais estranho é que nada parece acontecer de verdade. Não há indicação de tempo e lugar. E a peça transcorre dessa forma…  Dois homens, dividindo sonhos, silêncio, esperando por algo e/ou alguém capaz de mudar suas vidas completamente, algo e/ou alguém que possa lhes trazer um novo sentido  de viver, e que não os deixe desistir…

E esse é o grande “X” da questão, e que faz tudo ser tão interessante na peça. Porém, infelizmente, poucos se dão conta! Afinal, quem é esse homem? Quem é esse tal de Godot que nunca chega?

Na verdade, Godot pode ser quem quer que seja!

Godot pode ser Deus (God). A semelhança no nome não deve ser por acaso… Godot pode ser a esperança em si, a felicidade, um grande amor, a eminência da realização dos nossos sonhos, pode ser dias melhores, pode ser a própria vida e até mesmo a morte! E, afinal, o que é a nossa vida além de uma grande espera? E o que seria de nós se não tivéssemos um “Godot” para esperar, para nos fazer seguir em frente?

Mesmo que Godot não apareça nunca, é preciso esperar!

Para Beckett, essa questão era irrelevante! Por certo, ele não estava nem um pouco interessado em personificar Godot ou lhe conceber definição alguma! E eu fecho com ele! Cada um de nós crê em algo diferente, aguarda por alguma coisa em especial. Todos nós temos pouco (ou MUITO) a ver com aqueles dois pobres vagabundos, e as nossas vidas, com aquela estrada tão empoeirada e deserta… Estamos sempre nessa infinita espera.

(Parte II) – A Questão do Poder.

Há dois outros personagens em “Waiting for Godot”. Não é apenas Wladimir e Estragon e a interminável espera. Há também Pozzo e Lucky. Contudo, esses dois não estão à espera de nada. Estão apenas de passagem para o mercado.

Pozzo – “possession”, aquele que possui – representa o poder. Traz consigo seu escravo Lucky, que em português significa sortudo. Sortudo?! Andava encoleirado numa corda feita de seu próprio cabelo. “Sortudo por ter um emprego”, segundo seu senhor, Pozzo. Emprego?!

Lucky encoleirado como o Brasil “mandado” pelos banqueiros; e da mesma forma, o mundo inteiro que anda sob o jugo do domínio ditador, desumano, tirano, atroz do imperialismo norte-americano. Lucky encoleirado como eu, você e cada um de nós, escravizados por nossas próprias paixões.

Surge, então, uma nova questão: a do poder que escraviza.

Pozzo se considera MUITO bom por oferecer àquele pobre coitado um emprego. Mas que emprego?!

Por lhe deixar roer os ossos, comer de suas migalhas, de suas sobras. Matava a sua fome?!

Por lhe vestir com sua “grife de luxo”. Desnudo de respeito?!

Interessante realizar como aqueles que detêm o poder, freqüentemente, apresentam essa postura “boazinha”, a de quem ajuda, protege, acolhe e favorece. Como os Estados Unidos “defendendo” o mundo do terrorismo!

E passa Pozzo com seu escravo de luxo – o macaco na corrente que seu domador exibe como a atração da noite. Como os Estados Unidos exibindo a Amazônia como se fosse sua; como os homens exibindo suas cachorras lindas, loiras e popozudas; como as Kellys Keys da vida com seus cachorrinhos, cantando: “vem aqui que agora eu to mandando!”; como os patrões exibindo seus empregados em molduras, dependurados nas paredes das lanchonetes, com um sorriso contente (e um salário indecente…) por ser o destaque do mês.

E Pozzo e Lucky passam… Dão uma voltinha (pelo mundo, talvez…) e retornam no segundo ato. Só que agora, Pozzo se encontra cego, e Lucky, mudo!

Notem a simbologia de Beckett que, como já discuti outrora, passa despercebida pelo público muitas vezes, um público escravizado pela falta de sensibilidade, pela falta de cultura, educação e arte.

O poder é cego! E a mudez é característica marcante daqueles que são subjugados.

Quando se está no auge, a falsa idéia de “total e eterna onipotência” assola a cabeça dos poderosos (até que alguém exploda as Torres Gêmeas…). Quando se está submisso, a voz  enfraquece e se cala, aceitando, assim, as amarras da escravatura.

Mesmo mudo, Beckett traz Lucky no controle da situação agora.

Quem sabe, o autor não desejaria mostrar com isso, que nada, nem pessoa alguma, nem nação ou império algum é poderoso para toda a vida! E que sempre haverá esperança de mudança e de se encontrar a liberdade, mesmo que para isso tenhamos que nos remeter àquela primeira questão: a da espera.

Não desanimemos, então!

Não é isso que a História nos mostra? Nenhum poder permanece pra sempre.

Que a nossa espera, busca e luta pelas asas abertas da liberdade não esmoreçam JAMAIS!

(Parte III) – A Questão do Silêncio.

Para finalmente encerrar meus artigos neste blog sobre “Waiting for Godot” de Samuel Beckett, decidi tratar de uma outra questão bastante relevante nesta peça de grande sucesso para a dramaturgia moderna: o silêncio

“Waiting for Godot” é um convite ao silêncio. Silêncio esse, que devemos convir, vem para perturbar o público profundamente. Há momentos na peça em que há um silêncio (diria, quase mórbido…) entre os personagens. Por alguns instantes, eles se calam literalmente! Nada é dito! Fica um vazio, olhares perdidos, uma contemplação do nada, causando na platéia uma enorme ansiedade do que está por vir, por acontecer. E o pior (ou melhor?!) disso tudo, é que NADA acontece! O tempo parece passar desordenadamente… Não se sabe quando é dia ou noite, em que estação do ano estão vivendo. Ah, e aquele silêncio interminável, insuportável, dilacerante…

Mas o que queria, afinal, esse irlandês com esses seus dois vagabundos?

É através do silêncio que somos capazes de parar e refletir sobre quaisquer questionamentos: a nossa vida, as nossas reais expectativas, nossos valores,… Há uma passagem bíblica que diz que Deus se fez perceber na brisa mansa, leve e suave e NÃO no vento impetuoso e forte! Encontramos Deus no silêncio dos nossos corações, quando nos calamos para que Ele possa nos revelar a Sua vontade. Não seria através do silêncio que Wladimir e Estragon também não tentavam encontrar Godot (God/Deus)?! Digo, não no aspecto meramente religioso! Talvez, eles nem fossem religiosos… Mas não seria o silêncio um caminho para eles, finalmente, encontrarem o sentido de suas vidas?

Contudo o homem moderno, contemporâneo não está pronto para silenciar, nem mesmo, compreender o silêncio.

Estão todos sempre tão ocupados, apressados, estressados, cansados, ansiosos, impacientes, preocupados consigo mesmo e seus problemas,… buscando as respostas, as soluções…

É preciso falar e falar o tempo todo, explicar, convencer, persuadir, seduzir, doutrinar, dominar, impor nossas verdades supremas, as nossas idéias e conceitos.

Calar e ouvir o que o outro tem a dizer?!  Nem pensar!!!

E até mesmo, quando em meio a uma discussão calorosa, a outra parte resolve não dizer uma só palavra, o silêncio vem para incomodar. Fica-se tão desnorteado com o silêncio alheio que dá vontade de gritar: “diga alguma coisa, pelo amor de Deus!”.

Bem, essa é a reação de muitos que assistem “Waiting for Godot”: sentem-se irritados com aquele aparente nada; saem correndo do teatro, xingando o escritor, o diretor e os atores; maldizem cada centavo pago no bilhete e quem os convidou para assistir “aquilo” também. Talvez também tenham a vontade (mas não a coragem) de gritar: “digam algo, por favor! Onde está esse tal de Godot que nunca chega? Façam essa peça acontecer!”.

Para outros, porém, momento de reflexão através da arte.

Bem, se vocês nunca leram ou assistiram à essa peça, convido-os a fazer isso logo que tiverem uma chance, e assistirem a tudo com outros olhos, capazes de apreciar todas as questões citadas.

Enfim:

Que a ESPERANÇA nos reanime a cada dia!

Que o PODER jamais nos cegue, nos impedindo de seguir!

E que o SILÊNCIO nos revele o caminho para alcançar o que se busca!

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