
(Parte I) – A Questão da Espera
“Waiting for Godot” (Esperando Godot), peça de Samuel Beckett, escritor irlandês, publicada em 1953, foi escrita originalmente em francês, e só mais tarde, traduzida para o inglês. Diria que certamente foi um dos trabalhos literários mais importantes da dramaturgia do século XX. Tive a oportunidade de conhecer a mesma enquanto aluna na universidade. Em setembro de 2001, a peça esteve em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil. Tive, então, o privilégio de assisti-la. Recordo-me que alguns da platéia saíam durante o transcorrer do drama. Outros, quando perseveravam até o fim, deixavam o teatro entre resmungos e mal dizeres. Mas já era de se esperar!!! “Waiting for Godot” está intimamente ligada ao teatro do absurdo, onde tragédia e comédia colidem em uma ilustração obscura da condição humana e do absurdo da existência. Há uma esterilidade de emoções, ausência de comunicação e, totalmente, proposital!
Em “Waiting for Godot”, há dois personagens centrais: Wladimir e Estragon, dois mendigos a espera de um homem, Godot (que, na verdade, NUNCA chega). Estão sozinhos em uma estrada deserta que, aparentemente, não leva a lugar nenhum. O mais estranho é que nada parece acontecer de verdade. Não há indicação de tempo e lugar. E a peça transcorre dessa forma… Dois homens, dividindo sonhos, silêncio, esperando por algo e/ou alguém capaz de mudar suas vidas completamente, algo e/ou alguém que possa lhes trazer um novo sentido de viver, e que não os deixe desistir…
E esse é o grande “X” da questão, e que faz tudo ser tão interessante na peça. Porém, infelizmente, poucos se dão conta! Afinal, quem é esse homem? Quem é esse tal de Godot que nunca chega?
Na verdade, Godot pode ser quem quer que seja!
Godot pode ser Deus (God). A semelhança no nome não deve ser por acaso… Godot pode ser a esperança em si, a felicidade, um grande amor, a eminência da realização dos nossos sonhos, pode ser dias melhores, pode ser a própria vida e até mesmo a morte! E, afinal, o que é a nossa vida além de uma grande espera? E o que seria de nós se não tivéssemos um “Godot” para esperar, para nos fazer seguir em frente?
Mesmo que Godot não apareça nunca, é preciso esperar!
Para Beckett, essa questão era irrelevante! Por certo, ele não estava nem um pouco interessado em personificar Godot ou lhe conceber definição alguma! E eu fecho com ele! Cada um de nós crê em algo diferente, aguarda por alguma coisa em especial. Todos nós temos pouco (ou MUITO) a ver com aqueles dois pobres vagabundos, e as nossas vidas, com aquela estrada tão empoeirada e deserta… Estamos sempre nessa infinita espera.
(Parte II) – A Questão do Poder.
Há dois outros personagens em “Waiting for Godot”. Não é apenas Wladimir e Estragon e a interminável espera. Há também Pozzo e Lucky. Contudo, esses dois não estão à espera de nada. Estão apenas de passagem para o mercado.
Pozzo – “possession”, aquele que possui – representa o poder. Traz consigo seu escravo Lucky, que em português significa sortudo. Sortudo?! Andava encoleirado numa corda feita de seu próprio cabelo. “Sortudo por ter um emprego”, segundo seu senhor, Pozzo. Emprego?!
Lucky encoleirado como o Brasil “mandado” pelos banqueiros; e da mesma forma, o mundo inteiro que anda sob o jugo do domínio ditador, desumano, tirano, atroz do imperialismo norte-americano. Lucky encoleirado como eu, você e cada um de nós, escravizados por nossas próprias paixões.
Surge, então, uma nova questão: a do poder que escraviza.
Pozzo se considera MUITO bom por oferecer àquele pobre coitado um emprego. Mas que emprego?!
Por lhe deixar roer os ossos, comer de suas migalhas, de suas sobras. Matava a sua fome?!
Por lhe vestir com sua “grife de luxo”. Desnudo de respeito?!
Interessante realizar como aqueles que detêm o poder, freqüentemente, apresentam essa postura “boazinha”, a de quem ajuda, protege, acolhe e favorece. Como os Estados Unidos “defendendo” o mundo do terrorismo!
E passa Pozzo com seu escravo de luxo – o macaco na corrente que seu domador exibe como a atração da noite. Como os Estados Unidos exibindo a Amazônia como se fosse sua; como os homens exibindo suas cachorras lindas, loiras e popozudas; como as Kellys Keys da vida com seus cachorrinhos, cantando: “vem aqui que agora eu to mandando!”; como os patrões exibindo seus empregados em molduras, dependurados nas paredes das lanchonetes, com um sorriso contente (e um salário indecente…) por ser o destaque do mês.
E Pozzo e Lucky passam… Dão uma voltinha (pelo mundo, talvez…) e retornam no segundo ato. Só que agora, Pozzo se encontra cego, e Lucky, mudo!
Notem a simbologia de Beckett que, como já discuti outrora, passa despercebida pelo público muitas vezes, um público escravizado pela falta de sensibilidade, pela falta de cultura, educação e arte.
O poder é cego! E a mudez é característica marcante daqueles que são subjugados.
Quando se está no auge, a falsa idéia de “total e eterna onipotência” assola a cabeça dos poderosos (até que alguém exploda as Torres Gêmeas…). Quando se está submisso, a voz enfraquece e se cala, aceitando, assim, as amarras da escravatura.
Mesmo mudo, Beckett traz Lucky no controle da situação agora.
Quem sabe, o autor não desejaria mostrar com isso, que nada, nem pessoa alguma, nem nação ou império algum é poderoso para toda a vida! E que sempre haverá esperança de mudança e de se encontrar a liberdade, mesmo que para isso tenhamos que nos remeter àquela primeira questão: a da espera.
Não desanimemos, então!
Não é isso que a História nos mostra? Nenhum poder permanece pra sempre.
Que a nossa espera, busca e luta pelas asas abertas da liberdade não esmoreçam JAMAIS!
(Parte III) – A Questão do Silêncio.
Para finalmente encerrar meus artigos neste blog sobre “Waiting for Godot” de Samuel Beckett, decidi tratar de uma outra questão bastante relevante nesta peça de grande sucesso para a dramaturgia moderna: o silêncio.
“Waiting for Godot” é um convite ao silêncio. Silêncio esse, que devemos convir, vem para perturbar o público profundamente. Há momentos na peça em que há um silêncio (diria, quase mórbido…) entre os personagens. Por alguns instantes, eles se calam literalmente! Nada é dito! Fica um vazio, olhares perdidos, uma contemplação do nada, causando na platéia uma enorme ansiedade do que está por vir, por acontecer. E o pior (ou melhor?!) disso tudo, é que NADA acontece! O tempo parece passar desordenadamente… Não se sabe quando é dia ou noite, em que estação do ano estão vivendo. Ah, e aquele silêncio interminável, insuportável, dilacerante…
Mas o que queria, afinal, esse irlandês com esses seus dois vagabundos?
É através do silêncio que somos capazes de parar e refletir sobre quaisquer questionamentos: a nossa vida, as nossas reais expectativas, nossos valores,… Há uma passagem bíblica que diz que Deus se fez perceber na brisa mansa, leve e suave e NÃO no vento impetuoso e forte! Encontramos Deus no silêncio dos nossos corações, quando nos calamos para que Ele possa nos revelar a Sua vontade. Não seria através do silêncio que Wladimir e Estragon também não tentavam encontrar Godot (God/Deus)?! Digo, não no aspecto meramente religioso! Talvez, eles nem fossem religiosos… Mas não seria o silêncio um caminho para eles, finalmente, encontrarem o sentido de suas vidas?
Contudo o homem moderno, contemporâneo não está pronto para silenciar, nem mesmo, compreender o silêncio.
Estão todos sempre tão ocupados, apressados, estressados, cansados, ansiosos, impacientes, preocupados consigo mesmo e seus problemas,… buscando as respostas, as soluções…
É preciso falar e falar o tempo todo, explicar, convencer, persuadir, seduzir, doutrinar, dominar, impor nossas verdades supremas, as nossas idéias e conceitos.
Calar e ouvir o que o outro tem a dizer?! Nem pensar!!!
E até mesmo, quando em meio a uma discussão calorosa, a outra parte resolve não dizer uma só palavra, o silêncio vem para incomodar. Fica-se tão desnorteado com o silêncio alheio que dá vontade de gritar: “diga alguma coisa, pelo amor de Deus!”.
Bem, essa é a reação de muitos que assistem “Waiting for Godot”: sentem-se irritados com aquele aparente nada; saem correndo do teatro, xingando o escritor, o diretor e os atores; maldizem cada centavo pago no bilhete e quem os convidou para assistir “aquilo” também. Talvez também tenham a vontade (mas não a coragem) de gritar: “digam algo, por favor! Onde está esse tal de Godot que nunca chega? Façam essa peça acontecer!”.
Para outros, porém, momento de reflexão através da arte.
Bem, se vocês nunca leram ou assistiram à essa peça, convido-os a fazer isso logo que tiverem uma chance, e assistirem a tudo com outros olhos, capazes de apreciar todas as questões citadas.
Enfim:
Que a ESPERANÇA nos reanime a cada dia!
Que o PODER jamais nos cegue, nos impedindo de seguir!
E que o SILÊNCIO nos revele o caminho para alcançar o que se busca!